10 de agosto de 2018

{Resenha} Holocausto Brasileiro

Hoje a resenha é sobre o livro "Holocausto Brasileiro" de Daniela Arbex.


Eu demorei muito para ler esse livro, porque sabia que ia me chocar e ficar completamente triste com as histórias, mas nesse momento me preparei para lê-lo e não me arrependo, muito pelo contrário, me pergunto o porquê não o fiz antes.
"Ao receberem o passaporte para o hospital, os passageiros tinham sua humanidade confiscada."
O livro-reportagem da Daniela Arbex, conta a história de como o maior hospício do Brasil conseguiu se manter tanto tempo e o que se deu na vida das pessoas que conseguiram se libertar daquele pesadelo.

O hospital foi construído em Barbacena, em 1903, e o intuito era cuidar de pessoas que tinham alguma questão em saúde mental, porém o que se viu, foram pessoas levadas e deixadas no hospital, sem data para voltar. Algumas eram prostitutas, filhas de patrões que foram abusadas, alcoolistas, epiléticos e tantos outros que muitas vezes não tinham nem diagnóstico de doença mental.
"Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental."
Os pacientes do Colônia foram submetidos ao frio, a fome e às doenças que os levavam a morte. De uma maneira inacreditável eles eram torturados, violentados e esquecidos para depois seus cadáveres serem vendidos a preço de banana para muitas universidades do país.
"A teoria eugenista, que sustentava a ideia de limpeza social, fortalecia o hospital e justificava seus abusos. Livrar a sociedade de escória, desfazendo-se dela, de preferência em local que a vista não pudesse alcançar."
Foram mais de 60.000 mortes. Pessoas que entravam no trem e não sabiam nem o porquê estavam sendo "despachadas". Em jogo político, o hospital que era para ser um lugar seguro para os pacientes em crises, acabou se tornando uma prisão, e nada se fazia pois muitos políticos acabavam ganhando com todo esse esquema. Nesse "jogo" politíco, quem perdeu, foram as pessoas que permaneceram décadas dentro do Colônia, reclusas, sem identidade e sem contato com nenhum familiar. 

Em 1961 começaram a surgir de fato um olhar para o hospital. O fotógrafo Luiz Alfredo registrou cenas impactantes de horror dentro do hospital e acabaram saindo publicadas na revista O Cruzeiro. Em 1979, o jornal Estado de Minas publicou a reportagem "Os porões da loucura". E nesse mesmo ano, foi filmado o documentário Em nome da razão, de Helvétio Ratton.

Somente com a reforma psiquiátrica, que houve um movimento para desativar o hospital, isso se deu em 2001, onde foi estabelecido um novo modelo de assistência na saúde mental, baseado em uma rede de serviços e os pacientes sendo tratados em residências terapêuticas. 
"O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final".
O livro nos traz, de uma maneira triste, dolorosa e impactante, como somos um país atrasado e egoísta, e nos faz perceber que isso faz parte da nossa história, que tem que ser lembrada, e conhecida, para que possa ser escrito de uma nova forma o fim. Muitos morreram, muitos sofreram e ainda hoje sofrem pelo descaso do poder público e da sociedade. Evoluímos um pouco nesse quesito, mas precisamos de muito mais. O livro choca, com momentos de tristeza e angústia, mas também de alegria por saber que alguns pacientes do Colônia sobreviveram a toda a forma de tortura e estão aí, mostrando para a sociedade que podemos viver juntos, mesmo tendo uma doença mental. 

Vem ler e embarcar nessa história real, que vai fazer você se emocionar. 

Título: Holocausto Brasileiro
Autor: Daniela Arbex
Editora: Geração Editorial
Páginas: 256
Sinopse: Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.

2 comentários:

  1. Com certeza um livro que quero muito ler, acho que esse assunto é de suma importância mas ainda pouco debatido entre nós.

    www.estante450.blogspot.com.br

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    1. Sim, concordo com vc Cássia, ainda é um tabu conversar sobre essa época que acabou sendo um período muito difícil para o Brasil e para os brasileiros. Leia sim e vamos conversar.

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